Guias
Exemplo de transcrição de entrevista: modelo pronto e regras para TCC (2026)
Veja um trecho real de entrevista transcrito, copie o modelo com cabeçalho e códigos de participante, baixe o DOCX e confira os sinais do NURC, a anonimização e onde colocar a transcrição no TCC.
Uma transcrição de entrevista tem duas partes: um cabeçalho que identifica a gravação (pesquisa, data, duração, participantes e tipo de transcrição) e o texto das falas, com cada trecho atribuído a quem fala, como "E" para o entrevistador e "P1" para o participante. Para chegar lá, você gera um primeiro texto, à mão ou com uma ferramenta automática, revisa ouvindo a gravação, troca nomes por códigos quando prometeu sigilo e coloca o resultado no apêndice do trabalho.
Abaixo há um trecho real transcrito, um modelo para copiar (também em DOCX), os sinais de transcrição do Projeto NURC e o passo a passo até o apêndice. O exemplo vem de uma entrevista publicada com licença aberta no Wikimedia Commons, que traz junto uma transcrição feita por quem gravou; por isso dá para conferir cada palavra. Este guia foi escrito pela equipe do Transcrever. As regras de formatação mudam de uma instituição para outra: quando o manual do seu programa ou o seu orientador definir outra coisa, siga o que eles pedem.
Exemplo de transcrição de entrevista (trecho real)
O trecho é o início de uma entrevista sobre ética na pesquisa científica, gravada por Adriano Arrigo com a fonoaudióloga Fernanda Zucki, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, para o curso Introdução ao Jornalismo Científico. Esta é a versão revisada, em transcrição limpa:
TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA
Tema: ética na pesquisa científica
Entrevistador: Adriano Arrigo
Entrevistada: Fernanda Zucki (UFSC)
Data da gravação: 18/10/2024
Duração da gravação: 9 min 38 s | Trecho transcrito: 00:00 a 01:05
Tipo de transcrição: limpa
Revisão: comparada com a gravação e com a transcrição publicada junto a ela
[00:00] Adriano Arrigo: Professora, você pode se apresentar, por favor?
[00:03] Fernanda Zucki: Meu nome é Fernanda Zucki Matias, eu sou fonoaudióloga, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Minha área de atuação é a audiologia. Eu atuo em pesquisas que envolvam a saúde auditiva ambiental ou saúde auditiva do trabalhador, promovendo saúde e prevenção de agravos relacionados à saúde auditiva. Trabalho ainda com pesquisas que envolvem análises de dados secundários de trabalhadores, como, por exemplo, o Sinan, o DataSUS, e trabalho também com a promoção de saúde e educação por meio da Wikimedia, com grande enfoque na Wikipédia.
[00:59] Adriano Arrigo: E qual o papel da ética nas pesquisas científicas que você participa e desenvolve?
Fonte: entrevista de Adriano Arrigo com Fernanda Zucki, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. A transcrição publicada pelo autor cobre a entrevista inteira. A nossa transcrição deste trecho também fica sob CC BY-SA 4.0.
Repare em três escolhas: cada fala começa em um parágrafo novo, o nome de quem fala vem antes dos dois-pontos e o tempo entre colchetes marca onde o trecho começa na gravação. Aqui os nomes aparecem porque a entrevista é pública e os dois se identificam na gravação. Numa pesquisa com sigilo, os nomes viram códigos, como no modelo a seguir.
Modelo de transcrição de entrevista para copiar
Copie o bloco abaixo para o seu editor de texto ou baixe o modelo em DOCX, que já traz o cabeçalho, a lista de códigos e a tabela de sinais.
TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA
Pesquisa: [título do TCC, dissertação ou projeto]
Pesquisador(a) responsável: [nome]
Entrevista nº: [01]
Participante: [P1] (perfil sem identificação: ex. professora, 40 a 49 anos)
Entrevistador(a): [E]
Data: [dd/mm/aaaa] | Local ou meio: [presencial / videochamada]
Duração da gravação: [00 min 00 s]
Registro do consentimento: [escrito / gravado em áudio], em [dd/mm/aaaa]
Tipo de transcrição: [literal / limpa]
Transcrito por: [nome] | Revisado por: [nome], em [dd/mm/aaaa]
[00:00] E: [pergunta]
[00:00] P1: [resposta]
Cada campo tem uma função: o cabeçalho deixa a gravação localizável depois, o registro do consentimento mostra que a entrevista foi autorizada e o tipo de transcrição avisa quem lê se as marcas da fala foram mantidas ou não.
Transcrição literal ou limpa?
| Literal (naturalizada) | Limpa (editada) | |
|---|---|---|
| O que mantém | Tudo o que foi dito: "é", "né", repetições, frases cortadas, pausas | O conteúdo, sem hesitações nem repetições |
| Quando usar | Quando a forma da fala faz parte da análise: análise da conversa, linguística, discurso | Quando a análise é do conteúdo: temas, categorias, opiniões |
| Trabalho de revisão | Maior: é preciso ouvir cada hesitação e marcar pausas | Menor, mas sem mudar o sentido do que foi dito |
O próprio exemplo mostra a diferença. A transcrição publicada pelo autor mantém uma hesitação que a versão limpa tira:
- Literal: "trabalho também com a promoção de saúde e educação por meio é da Wikimedia"
- Limpa: "trabalho também com a promoção de saúde e educação por meio da Wikimedia"
Escolha um tipo antes de começar, anote no cabeçalho e use o mesmo em todas as entrevistas da pesquisa.
Sinais de transcrição do Projeto NURC
Para a transcrição literal, muitas pesquisas brasileiras adotam as normas do Projeto NURC (Norma Urbana Oral Culta). A tabela resume os sinais publicados no livro Oralidade e ensino (LEITE, Marli Quadros (org.), FFLCH/USP, 2020, p. 16–17), que é de acesso aberto. Os exemplos são nossos.
| Ocorrência | Sinal | Exemplo |
|---|---|---|
| Palavra ou trecho incompreensível | ( ) | a coleta foi feita em ( ) |
| Hipótese do que se ouviu | (hipótese) | (estava) no laboratório |
| Truncamento (palavra cortada) | / | a gente fez/ refez a análise |
| Entonação enfática | MAIÚSCULAS | isso é MUITO importante |
| Prolongamento de vogal ou consoante | :: (ou mais) | então:: a pesquisa |
| Qualquer pausa | ... | eu acho... que sim |
| Comentário de quem transcreve | ((comentário)) | ((risos)) |
| Fala sobreposta | [ ligando as linhas | duas falas ao mesmo tempo, com [ no início de cada uma |
| Fala tomada a partir de um ponto, e não do início | (...) | (...) e aí mudamos o protocolo |
O mesmo livro traz observações que valem para a transcrição literal: números por extenso, sem ponto de exclamação e com reticências no lugar de vírgula, ponto e ponto e vírgula para marcar pausa. Na transcrição limpa, use a pontuação normal da escrita. Se a sua pesquisa não analisa a forma da fala, combine com o orientador um conjunto menor de sinais, como ( ) e ((comentário)), e registre a escolha no cabeçalho.
Do áudio ao apêndice: passo a passo
- Registre o consentimento antes de gravar. Em pesquisas de Ciências Humanas e Sociais, a Resolução CNS nº 510/2016 admite que o consentimento seja comunicado de forma oral ou escrita (art. 5º) e registrado por escrito, em áudio ou em imagem (art. 15). O participante tem o direito de decidir se a sua identidade será divulgada (art. 9º, V); anote a resposta, porque ela define se você vai anonimizar.
- Grave cada entrevista em um arquivo próprio. Anote no nome do arquivo o número da entrevista e a data, como "entrevista-01-2026-10-22", e guarde uma cópia do original sem edição.
- Gere o primeiro texto. À mão, use um player que permita voltar alguns segundos e reduzir a velocidade. Com uma ferramenta automática, escolha o idioma da entrevista, ative a separação de falantes e informe nomes próprios e termos técnicos antes de enviar: nomes de pessoas, instituições e siglas são o que mais costuma sair errado.
- Revise ouvindo a gravação. Leia acompanhando o áudio e corrija palavras, nomes e a troca de falantes. Onde não der para entender, use ( ) ou [inaudível] com o tempo, em vez de adivinhar. Confira nomes de instituições e sistemas na fonte oficial, e não só no ouvido.
- Anonimize, se prometeu sigilo. Troque nomes por códigos (E, P1, P2) e substitua o que identifica alguém indiretamente: escola, empresa, cidade pequena, cargo único. A LGPD permite tratar dados pessoais para estudos por órgão de pesquisa, "garantida, sempre que possível, a anonimização" (art. 7º, IV). Guarde a lista que liga códigos a nomes separada da transcrição.
- Formate e coloque no apêndice. Pela ABNT NBR 14724, apêndice é o texto elaborado pelo próprio autor e anexo é o documento que não foi elaborado por ele. A transcrição que você fez vai no apêndice ("APÊNDICE A – Transcrição da entrevista 01"). Fonte, espaçamento e margens seguem o manual da sua instituição.
O que a transcrição automática errou neste exemplo
Antes da versão revisada, passamos a gravação completa pelo mesmo serviço de reconhecimento de voz que o Transcrever usa, com o idioma em português, separação de falantes ligada e nenhum nome ou termo informado com antecedência. Este é o resultado do trecho, sem nenhuma correção (o serviço identifica as vozes como A e B):
[00:00] A: Professora, você pode se apresentar, por favor?
[00:03] B: Meu nome é Fernanda Zucchi Matias, eu sou fonoaudióloga, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Minha área de atuação é a audiologia. Eu atuo em pesquisas que envolvam a saúde auditiva ambiental ou saúde auditiva do trabalhador. Promovendo saúde e prevenção de agravos relacionados à saúde auditiva. Trabalho ainda com pesquisas que envolvem análises de dados secundários de trabalhadores, como por exemplo o SINAM, o DataSus, e trabalho também com a promoção de saúde e educação por meio da Wikimedia, com grande enfoque na Wikipédia.
[00:59] A: Qual o papel da ética nas pesquisas científicas que você participa e desenvolve?
| Transcrição automática | Revisada | Como conferimos |
|---|---|---|
| A / B | Adriano Arrigo / Fernanda Zucki | A entrevistada se apresenta na gravação, e a ordem das falas confere com a transcrição do autor |
| Zucchi | Zucki | Nome no arquivo e na transcrição do autor |
| SINAM | Sinan | A transcrição do autor escreve "CINAN"; o nome oficial do sistema do Ministério da Saúde é Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) |
| DataSus | DataSUS | Grafia usada na página do Ministério da Saúde |
| trabalhador. Promovendo | trabalhador, promovendo | Pontuação: a frase continua |
| Qual o papel | E qual o papel | A transcrição do autor registra o "e" no início da pergunta |
Dois aprendizados que valem para qualquer entrevista:
- Nomes próprios e siglas exigem conferência na fonte. Neste trecho, tanto o texto automático quanto a transcrição feita por quem gravou erraram o nome do Sinan, cada um de um jeito.
- A separação de falantes precisa de revisão. No restante da gravação, o serviço passou a chamar a mesma entrevistada de "C" a partir da segunda resposta, como se fosse uma terceira pessoa. No editor do Transcrever, você renomeia uma voz em todos os trechos de uma vez ou troca o falante de um trecho específico.
Segundo exemplo: entrevista com códigos de participante
Este trecho é de outra entrevista do mesmo curso, sobre a biologia do envelhecimento, com um pesquisador da Unicamp. Ele aparece como saiu da transcrição automática, sem revisão, com as vozes já trocadas pelos códigos E e P1:
[00:01] E: Certo. Bom, então a principal questão pesquisada aqui no grupo é o envelhecimento. Para uma ideia geral assim, para as pessoas que entendem o envelhecimento de uma forma, como que aqui dentro de um laboratório de pesquisa na Unicamp se entende o envelhecimento? Como que vocês conseguem pegar esse conceito e estudar eles? Então como que os pesquisadores conseguem entender o que é o envelhecimento? Você já deu uma explicada na sua introdução, mas enfim.
[00:33] P1: Bom, a gente consegue estudar envelhecimento de diferentes formas. Envelhecimento é também uma das áreas mais interdisciplinares que existe.
[00:43] E: Sim, com certeza.
[00:46] P1: Você pode estudar o envelhecimento, o processo de envelhecimento, o idoso de diferentes formas, mas o nosso foco principal é na biologia do envelhecimento. Então a gente estuda o processo biológico do envelhecimento.
Fonte: entrevista com o prof. Marcelo Mori (Unicamp), Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.
Os códigos sozinhos não bastam quando a fala revela onde a pessoa trabalha. Numa pesquisa com sigilo, a primeira pergunta ficaria assim: "como que aqui dentro de um laboratório de pesquisa na [universidade] se entende o envelhecimento?". Note também o "Sim, com certeza." do entrevistador no meio da resposta: na transcrição literal ele fica; na limpa, pode sair, desde que você aplique o mesmo critério na entrevista toda.
Como citar a entrevista no TCC
As citações de trechos da entrevista seguem a ABNT NBR 10520:2023, como as de qualquer documento:
- Até três linhas: no corpo do texto, entre aspas duplas.
- Mais de três linhas: em bloco separado, com recuo recomendado de 4 cm da margem esquerda, letra menor que a do texto, espaço simples e sem aspas (manual da biblioteca da Unesp).
Identifique a fala pelo código do participante, como (P1, entrevista 01), e confirme com o manual do seu programa se ele pede outro formato. Cite o trecho como está na transcrição revisada do apêndice, para que quem ler encontre a mesma frase lá.
Quanto tempo e quanto custa
O tempo de transcrever à mão depende da qualidade do áudio, da velocidade da fala e do tipo de transcrição. Para estimar o seu, cronometre quanto leva para transcrever cinco minutos da sua entrevista e multiplique pela duração total. A literal sempre leva mais que a limpa.
Com uma transcrição automática, o seu tempo vai para a revisão. No Transcrever, sem criar conta, você testa um arquivo de até 10 minutos; com a conta grátis, são 30 minutos por mês, em arquivos de até 30 minutos. Para uma entrevista de uma hora, os minutos avulsos começam em 200 minutos por R$ 30 no Brasil, sem assinatura e sem validade, em arquivos de até 3 horas. O DOCX baixado traz o nome de cada falante em negrito antes da fala, mas não traz os tempos: se o seu modelo usa marcações como [00:59], copie o início de cada trecho mostrado no editor.
Perguntas frequentes
Preciso transcrever a entrevista inteira?
Depende do método e do que o orientador pede. Se você vai codificar a entrevista ou citar trechos, transcrever tudo evita perder o contexto de uma fala. Quando só parte da entrevista entra na análise, anote no cabeçalho quais trechos foram transcritos e marque o corte com (...).
Posso usar inteligência artificial para transcrever entrevistas do TCC?
Pode, como primeiro texto, desde que você revise ouvindo a gravação: o exemplo acima mostra que nomes, siglas e falantes saem errados. Confira também se o termo de consentimento e o comitê de ética permitem enviar a gravação para um serviço externo. No Transcrever, o áudio enviado é excluído 24 horas depois da conclusão.
A transcrição vai no apêndice ou no anexo?
No apêndice. Pela ABNT NBR 14724, apêndice é o texto elaborado pelo autor do trabalho, e a transcrição é feita por você. Anexo é para documentos de terceiros, como a cópia de uma lei ou de um formulário que você não produziu.
Como anonimizar uma transcrição de entrevista?
Troque o nome de cada pessoa por um código (E para quem entrevista, P1, P2 para os participantes), substitua lugares, instituições e cargos que permitam identificar alguém por descrições genéricas entre colchetes e guarde a lista de códigos separada da transcrição. Revise também o cabeçalho e o nome do arquivo.
Preciso colocar o tempo de cada fala?
Não há uma regra única: siga o que o seu programa ou orientador pedir. As marcações ajudam você e a banca a encontrar o trecho na gravação quando precisam voltar ao áudio. Se usar, marque pelo menos o início de cada fala, no formato [mm:ss] ou [hh:mm:ss].
Qual a diferença entre transcrição de entrevista literal e limpa?
A literal registra tudo o que foi dito, inclusive hesitações, repetições e pausas, com sinais como os do NURC. A limpa tira essas marcas e usa a pontuação da escrita, sem mudar o sentido da fala. Use a literal quando a forma da fala faz parte da análise e a limpa quando a análise é do conteúdo.
Para começar pela gravação da sua pesquisa, veja como transcrever uma entrevista e separar os falantes antes de revisar. Se o texto automático vier com muitos erros, o guia por que a transcrição automática fica ruim ajuda a encontrar a causa.